terça-feira, 18 de outubro de 2011

Espaço da Política (gente fina)


por João Petrucio (EJA Revista eletrônica)

Em nossos encontros semanais para as aulas de filosofia, sociologia ou história, é comum relacionarmos o conteúdo estudado com a realidade que nos cerca. Tem sido assim, há um bom tempo e acontecimentos contemporâneos relacionados aos históricos quase já não nos surpreende. Se a filosofia nos estimula a cultivar o amor pelo conhecimento numa abordagem metafórica tão bem explicitada por Platão sobre o mito da caverna em que a iluminação do conhecimento se contrapõe a cegueira da ignorância, ao mesmo tempo essa iluminação nos causa desassossego, pois, na medida em que nos afastamos da escuridão, acentuamos o tamanho do nosso sofrimento, já que não conseguimos compartilhar a luz com os remanescentes das sombras para convencê-los que tudo pode ser diferente.

Se metodologicamente a Sociologia nos permite compreender o funcionamento do organismo social para a construção adequada de nossa cidadania, a história por meio dos registros de nossas ações serve de parâmetros para compreendermos a evolução humana, o que de certa forma, tem sido fundamental para contemporizarmos com o que vivenciamos. Nesse sentido o histórico das nossas ações políticas tem nos permitido medir e avaliar os acontecimentos dessa medíocre valorização de nossa evolução. Sim, porque na mediada em que processamos a história estabelecendo relações entre o hoje e o ontem, a história é sem dúvida um fator de exercício da nossa memória. Basta observarmos o nosso processo de colonização e a forma como se iniciou a constituição da nossa identidade.

A relações inter-étnicas, realizadas por portugueses, índios e negros não nos trouxe apenas uma considerável população rejeitada de mamelucos bandeirantes, negros discriminados, mestiços e mulatos, mas, sobretudo, contribuiu para a consolidação de uma identidade, fragilizada, comprometedora e desvinculada de uma ação ética, saudável e cidadã. Não é sem motivo que historiadores insatisfeitos com as razões do nosso atraso, como Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freire, debruçaram-se em exaustivas pesquisas a fim de compreenderem os primórdios da nossa formação social e de suas causas patológicas.

Será que estaríamos reproduzindo geneticamente toda aquela ocupação determinada por Portugal por ocasião de uma sociedade impregnada de degredados daquele período aqui instalados? Será que a nossa falha não está exatamente na forma como lidamos com a nossa memória ou com a falta de aprendizado sobre as nossas escolhas, sobretudo, no campo da educação e da política?

Em sala de aula (composta por 25 alunos) num de nos nossos diálogos mais recentes, pedi para que levantasse a mão apenas aqueles que se lembravam do nome do candidato a deputado que mereceu seu voto nas últimas eleições realizadas há dois anos. O surpreendente é que depois longa pausa, apenas dois alunos responderam afirmativamente. Os demais permaneceram se esforçando para se lembrar não apenas do nome do candidato, mas o período em que ocorreu a mais recente eleição.

Para além da gravidade que o fato revela em si, é possível constatar também que algo não vai bem nesse nosso organismo sócio/político/filosófico de fortes pretensões e necessidades democráticas, dado tamanho do nosso histórico problema de memória. O que também nos leva considerar ser este um fator preponderante no âmbito da carreira política, já que no uso-fruto do mandato o parlamentar apenas se utilza das benesses do poder, transformando em verdadeiros "coronéis" da política e verdadeiros proprietário de municípios e até mesmo de estados do nosso país.

E são fatores assim, que nas últimas semanas possibilitaram a ação dos 265 deputados que covardemente protegidos pelo anonimato do voto secreto, dissessem sim a posse da deputada (Jaqueline Roriz) flagrada recebendo imensos pacotes de dinheiro para manutenção de sua campanha à Câmara Federal. E o que é pior, o argumento hipócrita, covarde e ridiculamente utilizado por esses falsos legisladores, é de que por ocasião do "eventual" episódio, a "inocente e eminente" deputada não pertencia ao colegiado da casa, como eles gostam de dizer, assim não haveria crime algum. Portanto, se houve erro, segundo eles, não é de competência daquela casa julgar.

Como sempre, apostam na anestesia da memória coletiva e a experiência deles aponta que isso funciona. Possuem a certeza que daqui a algum tempo, muitos de nós que votamos, voltaremos a fazê-lo, já que esses fatos não mais estarão na nossa memória. E é exatamente esse hábito de não exercitar a memória que nos tem feito reféns de carreiristas políticos de má fé, de ratazanas, de marginais travestidos de homens públicos que carregam a mais completa ausência de caráter. Daí sermos todos nós eleitores tratados como idiotas, ignorantes e continuadamente insultados em nossa inteligência.

Recentemente, aprovado em concursos público para professor da rede do nosso município tratei de providenciar os documentos exigidos para o meu ingresso. Dentre tudo, exigem também um atestado de antecedente criminal como prova de ficha limpa. Na Câmara Federal, no Congresso e Assembléia Legislativa, essa prática nos parece impensável, ou seja, as pessoas de antemão são consideradas gente fina. E que é pior, há muitas lá. Imaginemos se fosse diferente. Será que teríamos apenas os casos abaixo?

"PARLAMENTO"!

Jaqueline Roriz (PMN) Por 265 contra, 166 a favor e 20 abstenções, a Câmara rejeitou no dia 30 de agosto de 2011 o pedido de cassação da deputada Jaqueline Roriz (PMN-DF), apesar de pesarem contra ela as imagens de 2006 em que recebe dinheiro do pivô do recente escândalo do mensalão do DEM no Distrito Federal
Edmar Moreira (sem partido-MG) - Acusado de não ter declarado um castelo avaliado em mais de R$ 20 milhões, foi absolvido pelo Conselho de Ética por nove votos a quatro, em julho de 2009 Sérgio Lima/Folha Imagem - 03. fev.2009Jaqueline Roriz (PMN-DF) -
Paulinho da Força (PDT-SP) - Acusado de participar de um esquema de desvio de dinheiro do BNDES, foi absolvido pelo Conselho de Ética por dez votos a quatro, em dezembro de 2008.
Jair Bolsonaro (PP-RJ) - Acusado de homofobia e racismo, foi absolvido no Conselho de Ética por dez votos a sete, em junho de 2011.
Olavo Calheiros (PMDB-AL) - Acusado de quebra de decoro supostamente por ter ligações com o dono da construtora Gautama, Zuleido Veras, preso na Operação Navalha da Polícia Federal, foi absolvido no Conselho de Ética por 14 votos a zero em novembro de 2007.
Sandro Mabel (então no PL-GO) - Acusado de distribuição de suborno, foi absolvido em novembro de 2005 pelo plenário da Câmara, por 211 votos a 80.
João Correia (PMDB-AC) - Acusado de envolvimento na máfia das Sanguessugas, foi absolvido em dezembro de 2006 no Conselho de Ética, por onze votos a um.
Vadão Gomes (PP-SP) - Acusado de participação no mensalão, foi absolvido no plenário da Câmara em maio de 2006, por 243 votos a 161.
Pedro Henry (PP-MT) - Acusado de participação no mensalão, foi absolvido no plenário da Câmara em março de 2006, por 255 votos a 176.
José Janene (PP-PR) - Acusado de participação no mensalão, foi absolvido no plenário da Câmara em dezembro de 2006. O deputado morreu em setembro de 2010, após sofrer um AVC.
Wanderval Santos (então no PL-SP) - Acusado de participação no mensalão, foi absolvido no plenário da Câmara em março de 2006.
Professor Luizinho (PT-SP) - Acusado de participação no mensalão, foi absolvido no plenário da Câmara em março de 200.
Roberto Brant (na época no PFL-MG) - Acusado de participação no mensalão, foi absolvido no plenário da Câmara em março de 2006.
Romeu Queiroz (PTB-MG) - Acusado de participação no mensalão, foi absolvido no plenário da Câmara em dezembro de 2005.
João Magno (PT-MG) - Acusado de participação no mensalão, foi absolvido no plenário da Câmara em março de 2006.
José Mentor (PT-SP) - Acusado de participação no mensalão, foi absolvido no plenário da Câmara em abril de 2006.
João Paulo Cunha (PT-SP) - Acusado de participação no mensalão, foi absolvido no plenário da Câmara em abril de 2006.
Josias Gomes (PT-BA) - Acusado de participação no mensalão, foi absolvido no plenário da Câmara em maio de 2006.

Fonte: Revista Grafite

Nenhum comentário:

Postar um comentário